Devocionais

A arca de Noé e uma lição sobre paciência

O exercício da paciência é extremamente difícil, principalmente porque pra muitos de nós, quase tudo é “pra ontem”. Mas querendo ou não, para qualquer tarefa que façamos na vida, temos que esperar. O miojo está aí para provar que nem mesmo a comida escapa da necessidade da espera.

Buscamos exercer o domínio sobre quase tudo, mas ainda não nos acostumamos ao fato de que não podemos dominar o tempo. Os “pitis” são recorrentes. O pezinho balança na fila do caixa. Damos uma dimensão absurda á espera com declarações como “já faz meia hora que eu estou aqui”, mas nada acelera o relógio. É inevitável: precisamos ter paciência se não quisermos surtar. E desde a criação é assim.

Dias atrás, parei para recomeçar minha leitura da bíblia e confesso que desanimei um pouco quando me deparei com a passagem da arca de Noé. Eu já havia lido esse texto diversas vezes, e não esperava encontrar algo de novo nele. Engano meu.

Como boa parte de vocês deve saber, houve um dilúvio sobre a Terra e foi dada a Noé a missão de construir uma arca para abrigar sua família e casais de inúmeras espécies animais até que o dilúvio passasse. Até aí, nada de novo. Mas minha atenção se voltou a uma parte específica da história.

A paciência de Noé na Arca

Foram quarenta dias e quarenta noites de chuva, e as águas dominariam sobre a terra por cento e cinquenta dias. Após esse período, as águas foram diminuindo, até que os topos das montanhas começaram a aparecer.

Imagino o tédio e a agitação dos animais e da própria família de Noé ao terem que ficar fechados sem a noção do que se passava lá fora. Por isso, depois de um certo tempo, Noé resolveu tentar descobrir a situação da terra depois das chuvas.

Passados quarenta dias, Noé abriu a janela da arca e soltou um corvo, para ver se a terra já havia aparecido, mas o corvo ficou dando voltas e não achou onde pousar. Depois, soltou uma pomba, que também voltou para a arca por não ter encontrado onde pousar, pois a água ainda cobria a superfície da terra.

Noé esperou mais sete dias, e soltou novamente a pomba, que dessa vez voltou ao entardecer com uma folha de oliveira no bico, atestando que a água havia baixado sobre a terra.

Ainda assim, Noé esperou mais sete dias e soltou-a novamente, mas dessa vez ela não voltou. Meses após o dilúvio, Noé removeu o teto da arca e viu que a superfície da terra estava seca. Somente (pasmem) cinquenta e sete dias depois disso, Deus disse a Noé: “Saia da arca, você e sua família.”

Depois de ler essa passagem, eu fechei minha bíblia e me perguntei: “Já pensou se Noé simplesmente perdesse a paciência e abrisse a arca sem ter noção de como estavam as coisas lá fora? Morreriam todos e tudo teria sido em vão.”

O que aprendi ao reler essa passagem?

Nos deparamos com situações na vida em que a paciência se faz necessária, mais do que de costume. É preciso esperar, pra fazer as coisas da maneira certa, no tempo certo. Nem sempre é possível saber qual é a hora certa. E mesmo quando é possível, essa noção ainda parece um pouco incerta. E é aí que se chega ao ponto onde não há nada a ser feito, que não esperar.

Noé não podia fazer nada para acelerar o recuo das águas. Apenas contar com a ajuda dos pássaros para verificar a situação, e esperar com confiança a hora certa de sair da arca.

A impossibilidade de controlar o tempo e o desenrolar das coisas pode levar a dois caminhos: o do desespero, e o da paciência. Não há como escapar. Ou esperamos com confiança, ou nos desesperamos, e metemos os pés pelas mãos, deixando a agonia permear os nossos dias.

Não vou ser ingênua de dizer que é uma escolha simples, como chocolate ou morango. Mas essa escolha, ao meu ver, deve ser dirigida por duas perguntas: “O que eu posso fazer diante disso? “O que eu estou fazendo me levará a ficar como eu desejo ficar?”

Ser paciente pode ou não alterar o resultado do processo no qual você está, como foi o caso de Noé. Mas certamente, essa atitude irá influenciar em quem será a pessoa que estará, lá na frente, pronto para receber o que esperou, e em como esse tempo de espera, que não volta nunca mais, será desfrutado.

Quem você quer ser quando isso, que está demorando tanto, finalmente acontecer? Quem será a pessoa que irá apreciar aquele dia que pediu tanto para que chegasse logo? Quem você se tornará se perceber que aquilo que esperou pode não ser exatamente o que tanto idealizou? Quem você está se tornando enquanto tem que esperar por isso?

Respire fundo, e responda pra você mesmo. Ah, e fique tranquilo. Aquele que fez o tempo é o mesmo que fez você.

Texto bíblico base: Gênesis 8: 3-16 (NVI)