Devocionais, O que Deus me ensina

Fique à vontade, Ele te conhece.

Desde criança eu tinha mania de, em diversas situações, ficar me perguntando se usei as palavras certas, se me movi da maneira certa, se ofereci às pessoas o meu “lado” que mais faria com que gostassem de mim.

Principalmente quando ia falar com alguém “importante”, como profisisonais de RH ou empresários em entrevistas de emprego, professores ou intelectuais famosos, crushes ou caras bonitos, eu me perguntava como: “Será que eu falei alguma besteira?”, “Será que ele achou estranho eu por o cabelo pra trás da orelha?”, “Será que eu não devia ter falado que gostava de tal coisa, ou omitido que não gostava de tal coisa?”, “O que será que eu devia ter feito/falado?”

Eu sei, isso soa um tanto quanto ridículo. Mas ainda assim, sei que eu não sou a única pessoa que já fez isso. E sim, é horrível calcular milimetricamente suas ações e palavras, e se preocupar tanto com a impressão que iremos causar nas outras pessoas, sobretudo naquelas de quem queremos ter afeição.

Alguns dias atrás, quando estava em oração, percebi o quanto a presença de Deus é um lugar de descanso pra mim em relação a isso. Quando estou falando com Deus, percebo que não preciso me preocupar com nada disso, pelo simples fato de que Ele me conhece, e eu ser mais x ou mais y não irá mudar isso. Não preciso enaltecer minhas qualidades nem tentar esconder minhas falhas, porque não há nada que eu possa esconder dAquele que me criou. (Jr 1:5)

Eu já me encontrava em processo de evolução em relação a isso, e nessa caminhada é necessário ter muita paciência. Reconheço que já avancei bastante, e isso é ótimo, mas em nenhum outro lugar eu consigo me sentir tão livre desse fardo como quando estou conversando com Deus.

Enquanto falava com Ele sobre como é bom me sentir assim, à vontade, depois de tanto ter calculado cada movimento e cismado tanto com a reação das pessoas a cada coisinha que eu fazia, Ele me disse uma coisa que me marcou profundamente: você pode se sentir assim o tempo todo!

Eu fiquei paralisada.

Deus criou a cada pessoa com características extremamente particulares. Não existe ninguém igual a ninguém. Nem mesmo as estrelas são iguais entre si, e isso é mágico (ICor 15:41). Mas por mais que a gente ouça e leia isso em todo canto, trazer tais afirmações pra nossa realidade é difícil demais. E talvez ainda continue sendo por algum tempo.

Mas esse caminho é suavizado com a noção de que minha vida pertence Àquele que veio para que eu tivesse vida, e a tivesse plenamente (Jo 10:10). Agora me diz: como eu terei vida plenamente se eu vivo “pisando em ovos”? Não tem como!

Muitas vezes a gente nem sabe exatamente qual a reação das pessoas àquilo que nós somos genuinamente, porque nunca conseguimos mostrar isso com clareza, por estar tão acostumados a “atuar”. Então como podemos afirmar com certeza que seremos “desprezados”? E qual o mérito em ter perto da gente pessoas que nos admiram por aquilo que tentamos parecer e não pelo que somos de verdade?

Saber quem Deus nos chamou para ser e conhecê-lo de verdade, por um relacionamento particular com Ele e não pelo que nos contaram, nos liberta do peso das opiniões alheias a nosso respeito (Jo 8:36).

Com Ele, temos a tranquilidade necessária para nos sentir à vontade nesse mundo, mesmo sabendo que nossa casa não é aqui.

Se livre hoje desse peso de precisar sempre parecer algo que agarde a quem te vê de fora. Entre no seu quarto, e troque uma ideia com seu criador. Uma ideia mesmo, sabe? Converse com Ele como você mesmo e perceba que você é livre! Livre de verdade!

Experiências

Uma história sobre identidade

Sou a filha do meio de uma família simples que me criou com muita dignidade e honra. Desde criança, sempre fui mais quietinha. Onde minha mãe me deixava com alguns brinquedinhos por perto, eu ficava.

Por ser essa criança quieta, com quem meus pais não precisavam se preocupar tanto, fui aprendendo a me virar sozinha. Fazia as tarefas sem ninguém ter que me lembrar, e não era muito teimosa, talvez por ver meus pais se aborrecerem com as travessuras do meu irmão mais velho. Tais características eram recorrentemente elogiadas pelos meus pais, e eu me empenhava em ser a melhor filha possível.

Fazia de tudo para sustentar essa postura: a filha inteligente, dedicada, obediente, e que se virava sozinha. Mas esse “se virar sozinha” sempre me trouxe muita solidão. Além disso, necessidade inconsciente de ser a filha modelo me custou uma aut0-cobrança muito grande.

Quando eu tinha 12 anos, em janeiro de 2003, meus melhores amigos mudaram de cidade, e eu fiquei sozinha, de fato. Não tinha com quem brincar, com quem dividir minhas dúvidas, compartilhar minhas besteiras nem me abrir.

Ingressei na antiga sexta série cheia de medo, e com a responsabilidade de ser o mais querida possível, já que eu estava sem amigos. Minha missão era fazer com que o pessoal da escola gostasse de mim, mas eu falhava miseravelmente. Me sentia muito diferente da maioria deles. Me via como uma menina feia, careta, que não sabia conversar, desengonçada, sem graça.

 A única forma de atrair a atenção e conquistar a amizade das pessoas era fazendo ou emprestando todos os trabalhos possíveis, já que eu era meio nerd. Fiz da inteligência a minha isca para pescar o que mais me faltava: admiração, atenção, amizade. Por conta disso, quando tirava alguma nota baixa, meu mundo desmoronava, pois eu havia perdido a única coisa que fazia as pessoas se aproximarem de mim: meu status de aluna prodígio.

Eu tentava a todo custo ser qualquer coisa que me trouxesse o apreço das pessoas ao meu redor. Enquanto isso, sem perceber, ia me perdendo de mim mesma. Passei a vida inteira sem saber direito quem eu era, e com essa lacuna absurda de amor dentro de mim. Eu sentia que ser eu mesma não era suficiente para que as pessoas gostassem de mim. Eu tinha que ser mais.

Essa sensação constante de incompletude e insuficiência, por mais que eu ignorasse, ficou presa a mim durante muitos anos. Fui muito influenciável, machucada, abri mão de características, valores, opiniões minhas para ter pessoas por perto. Pessoas que, por mais que gostassem de mim, não faziam com que esse vazio fosse embora.

No dia 9 de junho de 2017, já com 26 anos de idade, eu tive um momento de total abertura e honestidade com alguém que eu conhecia, e em quem sempre acreditei, mas nunca havia conversado sobre isso. Com as portas do meu coração escancaradas, eu disse: eu não sei quem eu sou. Ele, diretamente e sem nenhum rodeio, me respondeu: Quer saber quem você é? Eu sei, e eu amo você exatamente assim.

Essa fala foi o pontapé inicial para que minha mente e meu coração se abrissem pra acolher uma verdade, não só a meu respeito, mas a respeito de cada ser humano: eu sou AMADA. Não preciso parecer mais x ou y pra isso. Eu já sou. Não é atoa que fui criada assim. Eu não precisei ser mais estilosa, mais comunicativa, mais rica ou mais bonita para que a fonte inesgotável de amor entregasse a própria vida por mim.

Aquele que foi enviado pelo Pai para salvar a humanidade, e de quem tanto se ouve falar no mundo todo, foi enviado para me salvar também. Me salvar de mim mesma e da perspectiva triste e distorcida que eu tinha de mim. Não vou mentir: esse é um paradigma difícil de ser quebrado, e é um desafio diário. Mas a percepção de que eu já sou incondicionalmente amada me levou onde jamais nenhuma outra ideologia ou teoria foi capaz de me levar. Por que? Porque é poderoso. Porque é legítimo. Porque é real!

Luto comigo mesma para que essa convicção prevaleça sobre os meus medos, inseguranças, e sobre os fantasmas da insuficiência, auto cobrança e auto estima baixa que me assombram às vezes. Mas quando eu olho para a cruz, eu tenho a convicção de que no fim, eu já sei quem vai vencer, quem por mim, já venceu, e fixo os olhos onde sei que Ele irá me levar.

Muitas pessoas não irão gostar de mim. Eu ainda sofrerei rejeição e talvez até antipatia. Talvez isso me deixe triste, mas se tudo isso me fizer cair, eu me levanto sabendo que tenho pra onde olhar, me orientar e continuar caminhando. E nesse caminho, eu levo essa certeza comigo e tenho coragem de ser só eu mesma, enxergando o quão mágico e poderoso isso é.

Creio que das nossas maiores feridas sairá poder para curar outras pessoas que sentem a mesma dor, e hoje eu sigo fazendo o meu máximo para levar essa convicção a todos que precisam dela. Se você se sente assim, tenha certeza de que você não está sozinho. Você não precisa de mais nada pra ser amado. Você já é amado incondicionalmente!

“Eu te louvo porque me fizeste de modo especial e admirável. Tuas obras são maravilhosas! Disso tenho plena certeza.” (Salmos 139:14)