Experiências

Uma história sobre identidade

Sou a filha do meio de uma família simples que me criou com muita dignidade e honra. Desde criança, sempre fui mais quietinha. Onde minha mãe me deixava com alguns brinquedinhos por perto, eu ficava.

Por ser essa criança quieta, com quem meus pais não precisavam se preocupar tanto, fui aprendendo a me virar sozinha. Fazia as tarefas sem ninguém ter que me lembrar, e não era muito teimosa, talvez por ver meus pais se aborrecerem com as travessuras do meu irmão mais velho. Tais características eram recorrentemente elogiadas pelos meus pais, e eu me empenhava em ser a melhor filha possível.

Fazia de tudo para sustentar essa postura: a filha inteligente, dedicada, obediente, e que se virava sozinha. Mas esse “se virar sozinha” sempre me trouxe muita solidão. Além disso, necessidade inconsciente de ser a filha modelo me custou uma aut0-cobrança muito grande.

Quando eu tinha 12 anos, em janeiro de 2003, meus melhores amigos mudaram de cidade, e eu fiquei sozinha, de fato. Não tinha com quem brincar, com quem dividir minhas dúvidas, compartilhar minhas besteiras nem me abrir.

Ingressei na antiga sexta série cheia de medo, e com a responsabilidade de ser o mais querida possível, já que eu estava sem amigos. Minha missão era fazer com que o pessoal da escola gostasse de mim, mas eu falhava miseravelmente. Me sentia muito diferente da maioria deles. Me via como uma menina feia, careta, que não sabia conversar, desengonçada, sem graça.

 A única forma de atrair a atenção e conquistar a amizade das pessoas era fazendo ou emprestando todos os trabalhos possíveis, já que eu era meio nerd. Fiz da inteligência a minha isca para pescar o que mais me faltava: admiração, atenção, amizade. Por conta disso, quando tirava alguma nota baixa, meu mundo desmoronava, pois eu havia perdido a única coisa que fazia as pessoas se aproximarem de mim: meu status de aluna prodígio.

Eu tentava a todo custo ser qualquer coisa que me trouxesse o apreço das pessoas ao meu redor. Enquanto isso, sem perceber, ia me perdendo de mim mesma. Passei a vida inteira sem saber direito quem eu era, e com essa lacuna absurda de amor dentro de mim. Eu sentia que ser eu mesma não era suficiente para que as pessoas gostassem de mim. Eu tinha que ser mais.

Essa sensação constante de incompletude e insuficiência, por mais que eu ignorasse, ficou presa a mim durante muitos anos. Fui muito influenciável, machucada, abri mão de características, valores, opiniões minhas para ter pessoas por perto. Pessoas que, por mais que gostassem de mim, não faziam com que esse vazio fosse embora.

No dia 9 de junho de 2017, já com 26 anos de idade, eu tive um momento de total abertura e honestidade com alguém que eu conhecia, e em quem sempre acreditei, mas nunca havia conversado sobre isso. Com as portas do meu coração escancaradas, eu disse: eu não sei quem eu sou. Ele, diretamente e sem nenhum rodeio, me respondeu: Quer saber quem você é? Eu sei, e eu amo você exatamente assim.

Essa fala foi o pontapé inicial para que minha mente e meu coração se abrissem pra acolher uma verdade, não só a meu respeito, mas a respeito de cada ser humano: eu sou AMADA. Não preciso parecer mais x ou y pra isso. Eu já sou. Não é atoa que fui criada assim. Eu não precisei ser mais estilosa, mais comunicativa, mais rica ou mais bonita para que a fonte inesgotável de amor entregasse a própria vida por mim.

Aquele que foi enviado pelo Pai para salvar a humanidade, e de quem tanto se ouve falar no mundo todo, foi enviado para me salvar também. Me salvar de mim mesma e da perspectiva triste e distorcida que eu tinha de mim. Não vou mentir: esse é um paradigma difícil de ser quebrado, e é um desafio diário. Mas a percepção de que eu já sou incondicionalmente amada me levou onde jamais nenhuma outra ideologia ou teoria foi capaz de me levar. Por que? Porque é poderoso. Porque é legítimo. Porque é real!

Luto comigo mesma para que essa convicção prevaleça sobre os meus medos, inseguranças, e sobre os fantasmas da insuficiência, auto cobrança e auto estima baixa que me assombram às vezes. Mas quando eu olho para a cruz, eu tenho a convicção de que no fim, eu já sei quem vai vencer, quem por mim, já venceu, e fixo os olhos onde sei que Ele irá me levar.

Muitas pessoas não irão gostar de mim. Eu ainda sofrerei rejeição e talvez até antipatia. Talvez isso me deixe triste, mas se tudo isso me fizer cair, eu me levanto sabendo que tenho pra onde olhar, me orientar e continuar caminhando. E nesse caminho, eu levo essa certeza comigo e tenho coragem de ser só eu mesma, enxergando o quão mágico e poderoso isso é.

Creio que das nossas maiores feridas sairá poder para curar outras pessoas que sentem a mesma dor, e hoje eu sigo fazendo o meu máximo para levar essa convicção a todos que precisam dela. Se você se sente assim, tenha certeza de que você não está sozinho. Você não precisa de mais nada pra ser amado. Você já é amado incondicionalmente!

“Eu te louvo porque me fizeste de modo especial e admirável. Tuas obras são maravilhosas! Disso tenho plena certeza.” (Salmos 139:14)

2 comentários em “Uma história sobre identidade”

  1. Caramba, achei muito legal o modo que você abordou todo o texto de uma forma ampla, e que no final, nos trouxe uma puta mensagem de quem somos, parabéns, tô aguardando o próximo!!

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  2. Que isso em Lorraine 👏🏾👏🏾👏🏾👏🏾, eu era da sua sala na escola mas te achava das mais legal e sangue bom, enfim, bela história e posta mais textos que vou ler haha

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