Devocionais

Um dia

Eu tenho o costume de passar meus horários de almoço olhando a vista da janela do prédio onde trabalho, ouvindo música, orando, pensando na vida, ou pensando em nada pra aliviar a tensão do dia.

Em um desses dias, eu me peguei observando a imensidão da paisagem e me perguntei: há quantos anos tudo isso que eu tô vendo lá no horizonte já existe, e quão grande é esse tempo em relação à existência desse prédio, da cidade, de mim mesma? Essa pergunta foi um boom na minha cabeça, mas um tempo depois, se tornou um pensamento pontual, e eu voltei ao trabalho.

Pensando nas dificuldades da vida, nessa mesma posição, eu me lembrei do dia em que me fiz essa pergunta e percebi algo que parece óbvio, mas que mesmo assim mexeu muito comigo: essas dificuldades também tem prazo de validade.

Daqui alguns anos, eu irei me lembrar das situações que hoje me causam preocupação, medo, tristeza, e dizer “quando eu estava enfrentando essa situação”, ou “há muito tempo, quando eu estava passando por isso”. Estava… no passado!

Quantos contextos cabem em uma vida? Nem se eu fosse muito inteligente eu saberia responder. Eu sei que, quando eu dou uma parada pra respirar e organizar as coisas na minha cabeça, eu enxergo nesses contextos a redenção de Deus sobre as nossas angústias, sobre nosso passado, sobre nossas dores.

Nossos dias aqui são contados, e não fazemos ideia de quantos serão. Por isso Deus nos ensina a viver um de cada vez, e a vivermos esse tempo com a maior sabedoria possível. (Sl 90:12 – Mt 6: 25-34)

Existe um tempo pra chorar as nossas dores, mas também existirá um tempo em que as dores não serão mais dores, as preocupações não nos preocuparão mais, ou novas situações nos trarão sensacões parecidas. Pra tudo existe um tempo determinado. Pra rir e pra chorar. Pra abraçar e pra se afastar. Tempo de guerra e tempo de paz. O riso e o choro, a guerra e a paz estarão dentro de nós durante o tempo que passarmos aqui.

É estranho pensar que não fazemos ideia de qual será o motivo do nosso choro ou do nosso riso daqui algum tempo, quando esses mesmos motivos de hoje se transformarem apenas em lembranças. Mas essa sensação assustadora de finitude e de infinitude (ambas, ao mesmo tempo) não nos assombra quando confiamos num Deus que faz tudo belo a seu tempo. (Ec 3:11)

Essas situações que nos levam à janela do prédio pra pensar na vida nos acompanharão enquanto estivermos aqui, e isso faz parte. Tudo vai passar. A situações, o prédio, a música, a gente. Como diz a música que tocava quando esse pensamento me alcançou, que eu me desafie a me mover, em confiança. Aquele que caminha comigo e as suas palavras durarão para sempre, qualquer que seja a situação (Mt 24:35).

“What if redemption has stories to tell?”
Switchfoot – Dare You to Move

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Devocionais, O que Deus me ensina

Fique à vontade, Ele te conhece.

Desde criança, eu tinha mania de, em diversas situações, ficar me perguntando se usei as palavras certas, se me movi da maneira certa, se ofereci às pessoas o meu “lado” que mais faria com que gostassem de mim.

Principalmente quando ia falar com alguém “importante”, como profisisonais de RH ou empresários em entrevistas de emprego, professores ou intelectuais famosos, crushes ou caras bonitos, eu me perguntava como: “Será que eu falei alguma besteira?”, “Será que ele achou estranho eu por o cabelo pra trás da orelha?”, “Será que eu não devia ter falado que gostava de tal coisa, ou omitido que não gostava de tal coisa?”, “O que será que eu devia ter feito/falado?”

Eu sei, isso soa um tanto quanto ridículo. Mas ainda assim, sei que eu não sou a única pessoa que já fez isso. E sim, é horrível calcular milimetricamente suas ações e palavras, e se preocupar tanto com a impressão que iremos causar nas outras pessoas, sobretudo naquelas de quem queremos ter afeição.

Alguns dias atrás, quando estava em oração, percebi o quanto a presença de Deus é um lugar de descanso pra mim em relação a isso. Quando estou falando com Deus, percebo que não preciso me preocupar com nada disso, pelo simples fato de que Ele me conhece, e eu ser mais x ou mais y não irá mudar isso. Não preciso enaltecer minhas qualidades nem tentar esconder minhas falhas, porque não há nada que eu possa esconder dAquele que me criou. (Jr 1:5)

Eu já me encontrava em processo de evolução em relação a isso, e nessa caminhada é necessário ter muita paciência. Reconheço que já avancei bastante, e isso é ótimo, mas em nenhum outro lugar eu consigo me sentir tão livre desse fardo como quando estou conversando com Deus.

Enquanto falava com Ele sobre como é bom me sentir assim, à vontade, depois de tanto ter calculado cada movimento e cismado tanto com a reação das pessoas a cada coisinha que eu fazia, Ele me disse uma coisa que me marcou profundamente: você pode se sentir assim o tempo todo!

Eu fiquei paralisada.

Deus criou a cada pessoa com características extremamente particulares. Não existe ninguém igual a ninguém. Nem mesmo as estrelas são iguais entre si, e isso é mágico (ICor 15:41). Mas por mais que a gente ouça e leia isso em todo canto, trazer tais afirmações pra nossa realidade é difícil demais. E talvez ainda continue sendo por algum tempo.

Mas esse caminho é suavizado com a noção de que minha vida pertence Àquele que veio para que eu tivesse vida, e a tivesse plenamente (Jo 10:10). Agora me diz: como eu terei vida plenamente se eu vivo “pisando em ovos”? Não tem como!

Muitas vezes a gente nem sabe exatamente qual a reação das pessoas àquilo que nós somos genuinamente, porque nunca conseguimos mostrar isso com clareza, por estar tão acostumados a “atuar”. Então como podemos afirmar com certeza que seremos “desprezados”? E qual o mérito em ter perto da gente pessoas que nos admiram por aquilo que tentamos parecer e não pelo que somos de verdade?

Saber quem Deus nos chamou para ser e conhecê-lo de verdade, por um relacionamento particular com Ele e não pelo que nos contaram, nos liberta do peso das opiniões alheias a nosso respeito (Jo 8:36).

Com Ele, temos a tranquilidade necessária para nos sentir à vontade nesse mundo, mesmo sabendo que nossa casa não é aqui.

Se livre hoje desse peso de precisar sempre parecer algo que agarde a quem te vê de fora. Entre no seu quarto, e troque uma ideia com seu criador. Uma ideia mesmo, sabe? Converse com Ele como você mesmo e perceba que você é livre! Livre de verdade!

Sem categoria

Pense um pouco em você

Todos nós nascemos pequenos e frágeis, e já chegamos ao mundo precisamos de cuidados. Isso muda, em certa medida, conforme vamos crescendo. Mas muito ou pouco, mais ou menos, todo mundo precisa de ser cuidado, de alguma forma. Fisicamente, emocionalmente, espiritualmente, e por aí vai. Somos cuidados, e aprendemos a cuidar uns dos outros.

A gente cresce, aprende a se virar, e ao ver tanta gente precisando de tanta coisa ao nosso redor, nos dispomos a ajudar, principalmente aqueles que mais amamos. Isso não é nem um pouco ruim. Pelo contrário, um sinal claro da generosidade e do altruísmo que há em nós, em medidas e formas diferentes em cada um. O problema é quando chegamos ao ponto em que cuidamos de tudo e todos, e acabamos nos deixando pra trás.

Se você já andou de avião, deve ter reparado nas famosas instruções de segurança demonstradas antes de toda viagem, até para passageiros frequentes. Enquanto eu refletia sobre essa questão, dias atrás, me lembrei de uma frase falada pelos comissários ao mostrar as máscaras de oxigênio: “Auxilie crianças ou pessoas com dificuldades após colocar a sua máscara.”

Isso mesmo. “Após colocar a sua máscara”. Refleti com cuidado sobre essa afirmação, até porque sei que há casos e que mesmo estando em pedaços, não podemos abandonar familiares ou entes queridos que tanto precisam de nós. Mas mesmo nessas situações, é fato que não conseguiremos ajudar se não tivermos condições.

Por que o comissário nos orienta a auxiliar pessoas com dificuldades após colocar nossa máscara? Porque se não colocarmos ela primeiramente em nós, morreremos, e aí sim não poderemos ajudar ninguém.

Vivi por muito tempo com a ilusão de que deveria cuidar de muita coisa ao meu redor que não dependia de mim, e que se eu não me preocupasse com isso, certamente tudo ia desandar. Ao tentar resolver os problemas de todos, esquecia de mim constantemente, e aí, em vez de ajudar, acabava atrapalhando.

Ajudar os outros em suas dificuldades, tentar resolver problemas ou amenizar situações que claramente os estão prejudicando, é um ato nobre. Sim! Mas que nobreza há nisso, se para cuidar de outrem acabamos nos desgastando completamente?

Pensando sobre isso, cheguei a duas conclusões que acredito que são importantíssimas: o cuidado, por mais que seja algo que devemos ter uns pelos outros, é uma das ações mais individuais que existem. A primeira pessoa que deve obrigatoriamente cuidar de mim, sou eu. Isso porque, de maneira direta, ninguém tem a obrigação de fazê-lo. E se ninguém cuidar de você, cuide-se. E mesmo que alguém queira cuidar de você, cuide-se assim mesmo. Porque você, mais do que ninguém, sabe onde “o sapato aperta”.

Ao fazer essa primeira reflexão, constantemente eu me perguntava: “Será que pensar assim é um ato egoísta?” E foi aí que cheguei à segunda conclusão: Não! Não, porque se eu deixar de cuidar de mim, não serei capaz de cuidar de ninguém. Não poderei colocar a máscara de oxigênio nos outros se tiver morrido asfixiada.

Quando pensar em ajudar alguém com algum problema, aconselhar um amigo, dar um puxão de orelha em um irmão, esteja atento a como (e se) isso te afeta, te prejudica, te entristece. Faça o que lhe cabe, de coração aberto, mas saiba: você não pode resolver tudo para eles, por mais que queira. Não há problema em ajudá-los, mas se isso de alguma maneira estiver te fazendo definhar, pare um pouco e cuide de você primeiro. Se apagar o incêndio do outro estiver fazendo você se queimar inteiro, se dê um tempo.

Pare. Respire. Saia pra dar uma volta. Tome um café em silêncio, atente-se ao que dói em você e cuide disso. Fique um tempo na sua, se perceber que é preciso. Se afastar um pouco para cuidar de você te dará condições para desfrutar da sua vida, que é somente sua, e a fazer por eles algo que de fato está ao seu alcance, sem que isso te prejudique.

Não se esqueça: você é a única pessoa que vai passar o resto da vida ao seu lado. Então, se cuide. Respeite seus limites. Se dê um tempo.

Tá tudo bem!

“[…] Amarás o teu próximo como a ti mesmo.” – Mateus 22:39

Cartas

Aos indecisos

Oi.

Se essa carta chegou até você, provavelmente sua cabeça está uma bagunça agora. Você faz desenhos, constrói cenários e cogita um milhão de possibilidades, das quais nem sequer a metade é concreta ainda. E isso está sugando toda a sua atenção. Eu sei. Mas calma. Pare um minutinho suas reflexões, e preste atenção no que vou tentar te explicar.

Tomar decisões é obrigatório. Mesmo não decidir é uma decisão. Mas no meio disso tudo, antes que você surte ou tome uma decisão de maneira desesperada, existem algumas coisas que acredito que você precisa saber.

Sabe, algumas decisões não são tão importantes quanto você pensa, nem vão ter na sua vida o impacto que você acredita que terão. Outras são mais importantes, e podem realmente mudar o seu futuro. Nesses casos, a reflexão é difícil, penosa, e a cobrança em decidir certo é gigantesca. Eu entendo. Entendo de verdade, porque já passei inúmeras vezes pela mesma situação.

Acontece que por mais que você pense, repense, considere, pondere, não tem como ter certeza de qual será a decisão absoluta e inquestionavelmente certa. Primeiro, porque você não pode acelerar o tempo e ver se essa decisão resultará exatamente no cenário que você está imaginando. Talvez esse cenário não seja de fato o melhor pra você, nem esse, nem todos os outras nos quais você pensou.

É possível que hoje você escolha fazer faculdade de Letras, esteja encantado com o curso e a profissão e sinta de verdade que esse é o seu caminho. Depois de um tempo, você pode parar, olhar os resultados da sua escolha ou como você se sente diante deles, e pensar: não era bem isso que eu queria. E esteja certo: não existe nenhum demérito em mudar seu caminho se é isso que você verdadeiramente quer pra você.

Para qualquer decisão que você for tomar na vida, mas principalmente para aquelas que podem mudar todo o seu futuro e que você quer que sejam para sempre, é necessário primeiro uma coisa, que só depende de você: se conheça.

Saber quem você é, em detrimento de todas as influências que te cercam, de toda a obrigação inconsciente de agradar aos outros e da sua vontade de eliminar toda a possibilidade de erro, é imprescindível pra qualquer decisão.

Se preferir, fique uns minutinhos sozinho e converse com você mesmo. E não, isso não é coisa de gente louca. Essa é inclusive uma forma de se respnsabilizar diante das suas escolhas.

Te digo isso porque suas escolhas são suas. Apenas suas. Você pode ouvir e considerar a opinião de muitas pessoas que tem autoridade sobre a sua vida (autoridade no sentido de ser pessoas pelas quais você tem grande consideração e que são importantes pra você).

Ouví-las com atenção e coração aberto, sem a cobrança de ter que agradá-las, é muito válido e importante. Mas no fim das contas, quem estará lá na frente, lidando com aquilo que escolheu é você.

Quem trabalhará com o que escolheu é você. Quem cuidará das crianças é você. Quem se olhará no espelho depois do que foi mudado é você. Quem conviverá todos os dias da vida com a pessoa que escolheu é você.

E se você escolher “errado”? Por mais que você se conheça e esteja tranquilo com suas decisões, é impossível te dizer que não existe possibilidade de “errar”. Diante disso, só me cabe te dizer a certeza que tenho: não será o fim do mundo. Você irá aprender com isso, irá criar um novo cenário para sua vida depois de tudo, e irá decidir de maneira mais acertada dali em diante.

Não tenha medo de decidir. Decida, acima de tudo, com o seu coração. Não se martirize pensando como teria sido se você tivesse ido para o outro lado. Aquele caminho que você não trilhou, não existe. E fique tranquilo. Essa vida tem possibilidades incontáveis, e qualquer que seja a que você tenha escolhido, fica tudo mais leve se você souber Quem está caminhando com você.

Um grande abraço e fique com Deus.

Com amor,

Lorraine.

Devocionais

A arca de Noé e uma lição sobre paciência

O exercício da paciência é extremamente difícil, principalmente porque pra muitos de nós, quase tudo é “pra ontem”. Mas querendo ou não, para qualquer tarefa que façamos na vida, temos que esperar. O miojo está aí para provar que nem mesmo a comida escapa da necessidade da espera.

Buscamos exercer o domínio sobre quase tudo, mas ainda não nos acostumamos ao fato de que não podemos dominar o tempo. Os “pitis” são recorrentes. O pezinho balança na fila do caixa. Damos uma dimensão absurda á espera com declarações como “já faz meia hora que eu estou aqui”, mas nada acelera o relógio. É inevitável: precisamos ter paciência se não quisermos surtar. E desde a criação é assim.

Dias atrás, parei para recomeçar minha leitura da bíblia e confesso que desanimei um pouco quando me deparei com a passagem da arca de Noé. Eu já havia lido esse texto diversas vezes, e não esperava encontrar algo de novo nele. Engano meu.

Como boa parte de vocês deve saber, houve um dilúvio sobre a Terra e foi dada a Noé a missão de construir uma arca para abrigar sua família e casais de inúmeras espécies animais até que o dilúvio passasse. Até aí, nada de novo. Mas minha atenção se voltou a uma parte específica da história.

A paciência de Noé na Arca

Foram quarenta dias e quarenta noites de chuva, e as águas dominariam sobre a terra por cento e cinquenta dias. Após esse período, as águas foram diminuindo, até que os topos das montanhas começaram a aparecer.

Imagino o tédio e a agitação dos animais e da própria família de Noé ao terem que ficar fechados sem a noção do que se passava lá fora. Por isso, depois de um certo tempo, Noé resolveu tentar descobrir a situação da terra depois das chuvas.

Passados quarenta dias, Noé abriu a janela da arca e soltou um corvo, para ver se a terra já havia aparecido, mas o corvo ficou dando voltas e não achou onde pousar. Depois, soltou uma pomba, que também voltou para a arca por não ter encontrado onde pousar, pois a água ainda cobria a superfície da terra.

Noé esperou mais sete dias, e soltou novamente a pomba, que dessa vez voltou ao entardecer com uma folha de oliveira no bico, atestando que a água havia baixado sobre a terra.

Ainda assim, Noé esperou mais sete dias e soltou-a novamente, mas dessa vez ela não voltou. Meses após o dilúvio, Noé removeu o teto da arca e viu que a superfície da terra estava seca. Somente (pasmem) cinquenta e sete dias depois disso, Deus disse a Noé: “Saia da arca, você e sua família.”

Depois de ler essa passagem, eu fechei minha bíblia e me perguntei: “Já pensou se Noé simplesmente perdesse a paciência e abrisse a arca sem ter noção de como estavam as coisas lá fora? Morreriam todos e tudo teria sido em vão.”

O que aprendi ao reler essa passagem?

Nos deparamos com situações na vida em que a paciência se faz necessária, mais do que de costume. É preciso esperar, pra fazer as coisas da maneira certa, no tempo certo. Nem sempre é possível saber qual é a hora certa. E mesmo quando é possível, essa noção ainda parece um pouco incerta. E é aí que se chega ao ponto onde não há nada a ser feito, que não esperar.

Noé não podia fazer nada para acelerar o recuo das águas. Apenas contar com a ajuda dos pássaros para verificar a situação, e esperar com confiança a hora certa de sair da arca.

A impossibilidade de controlar o tempo e o desenrolar das coisas pode levar a dois caminhos: o do desespero, e o da paciência. Não há como escapar. Ou esperamos com confiança, ou nos desesperamos, e metemos os pés pelas mãos, deixando a agonia permear os nossos dias.

Não vou ser ingênua de dizer que é uma escolha simples, como chocolate ou morango. Mas essa escolha, ao meu ver, deve ser dirigida por duas perguntas: “O que eu posso fazer diante disso? “O que eu estou fazendo me levará a ficar como eu desejo ficar?”

Ser paciente pode ou não alterar o resultado do processo no qual você está, como foi o caso de Noé. Mas certamente, essa atitude irá influenciar em quem será a pessoa que estará, lá na frente, pronto para receber o que esperou, e em como esse tempo de espera, que não volta nunca mais, será desfrutado.

Quem você quer ser quando isso, que está demorando tanto, finalmente acontecer? Quem será a pessoa que irá apreciar aquele dia que pediu tanto para que chegasse logo? Quem você se tornará se perceber que aquilo que esperou pode não ser exatamente o que tanto idealizou? Quem você está se tornando enquanto tem que esperar por isso?

Respire fundo, e responda pra você mesmo. Ah, e fique tranquilo. Aquele que fez o tempo é o mesmo que fez você.

Texto bíblico base: Gênesis 8: 3-16 (NVI)

Experiências

Uma história sobre identidade

Sou a filha do meio de uma família simples que me criou com muita dignidade e honra. Desde criança, sempre fui mais quietinha. Onde minha mãe me deixava com alguns brinquedinhos por perto, eu ficava.

Por ser essa criança quieta, com quem meus pais não precisavam se preocupar tanto, fui aprendendo a me virar sozinha. Fazia as tarefas sem ninguém ter que me lembrar, e não era muito teimosa, talvez por ver meus pais se aborrecerem com as travessuras do meu irmão mais velho. Tais características eram recorrentemente elogiadas pelos meus pais, e eu me empenhava em ser a melhor filha possível.

Fazia de tudo para sustentar essa postura: a filha inteligente, dedicada, obediente, e que se virava sozinha. Mas esse “se virar sozinha” sempre me trouxe muita solidão. Além disso, necessidade inconsciente de ser a filha modelo me custou uma aut0-cobrança muito grande.

Quando eu tinha 12 anos, em janeiro de 2003, meus melhores amigos mudaram de cidade, e eu fiquei sozinha, de fato. Não tinha com quem brincar, com quem dividir minhas dúvidas, compartilhar minhas besteiras nem me abrir.

Ingressei na antiga sexta série cheia de medo, e com a responsabilidade de ser o mais querida possível, já que eu estava sem amigos. Minha missão era fazer com que o pessoal da escola gostasse de mim, mas eu falhava miseravelmente. Me sentia muito diferente da maioria deles. Me via como uma menina feia, careta, que não sabia conversar, desengonçada, sem graça.

 A única forma de atrair a atenção e conquistar a amizade das pessoas era fazendo ou emprestando todos os trabalhos possíveis, já que eu era meio nerd. Fiz da inteligência a minha isca para pescar o que mais me faltava: admiração, atenção, amizade. Por conta disso, quando tirava alguma nota baixa, meu mundo desmoronava, pois eu havia perdido a única coisa que fazia as pessoas se aproximarem de mim: meu status de aluna prodígio.

Eu tentava a todo custo ser qualquer coisa que me trouxesse o apreço das pessoas ao meu redor. Enquanto isso, sem perceber, ia me perdendo de mim mesma. Passei a vida inteira sem saber direito quem eu era, e com essa lacuna absurda de amor dentro de mim. Eu sentia que ser eu mesma não era suficiente para que as pessoas gostassem de mim. Eu tinha que ser mais.

Essa sensação constante de incompletude e insuficiência, por mais que eu ignorasse, ficou presa a mim durante muitos anos. Fui muito influenciável, machucada, abri mão de características, valores, opiniões minhas para ter pessoas por perto. Pessoas que, por mais que gostassem de mim, não faziam com que esse vazio fosse embora.

No dia 9 de junho de 2017, já com 26 anos de idade, eu tive um momento de total abertura e honestidade com alguém que eu conhecia, e em quem sempre acreditei, mas nunca havia conversado sobre isso. Com as portas do meu coração escancaradas, eu disse: eu não sei quem eu sou. Ele, diretamente e sem nenhum rodeio, me respondeu: Quer saber quem você é? Eu sei, e eu amo você exatamente assim.

Essa fala foi o pontapé inicial para que minha mente e meu coração se abrissem pra acolher uma verdade, não só a meu respeito, mas a respeito de cada ser humano: eu sou AMADA. Não preciso parecer mais x ou y pra isso. Eu já sou. Não é atoa que fui criada assim. Eu não precisei ser mais estilosa, mais comunicativa, mais rica ou mais bonita para que a fonte inesgotável de amor entregasse a própria vida por mim.

Aquele que foi enviado pelo Pai para salvar a humanidade, e de quem tanto se ouve falar no mundo todo, foi enviado para me salvar também. Me salvar de mim mesma e da perspectiva triste e distorcida que eu tinha de mim. Não vou mentir: esse é um paradigma difícil de ser quebrado, e é um desafio diário. Mas a percepção de que eu já sou incondicionalmente amada me levou onde jamais nenhuma outra ideologia ou teoria foi capaz de me levar. Por que? Porque é poderoso. Porque é legítimo. Porque é real!

Luto comigo mesma para que essa convicção prevaleça sobre os meus medos, inseguranças, e sobre os fantasmas da insuficiência, auto cobrança e auto estima baixa que me assombram às vezes. Mas quando eu olho para a cruz, eu tenho a convicção de que no fim, eu já sei quem vai vencer, quem por mim, já venceu, e fixo os olhos onde sei que Ele irá me levar.

Muitas pessoas não irão gostar de mim. Eu ainda sofrerei rejeição e talvez até antipatia. Talvez isso me deixe triste, mas se tudo isso me fizer cair, eu me levanto sabendo que tenho pra onde olhar, me orientar e continuar caminhando. E nesse caminho, eu levo essa certeza comigo e tenho coragem de ser só eu mesma, enxergando o quão mágico e poderoso isso é.

Creio que das nossas maiores feridas sairá poder para curar outras pessoas que sentem a mesma dor, e hoje eu sigo fazendo o meu máximo para levar essa convicção a todos que precisam dela. Se você se sente assim, tenha certeza de que você não está sozinho. Você não precisa de mais nada pra ser amado. Você já é amado incondicionalmente!

“Eu te louvo porque me fizeste de modo especial e admirável. Tuas obras são maravilhosas! Disso tenho plena certeza.” (Salmos 139:14)